Quem somos

Quem somos
A turma mais top do Brasil

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Utilização de clorexidina em gel na desinfecção de aparelhos celulares

                    Rafael Muniz de Oliveira

Durante o meu trabalho, atuando como Enfermeiro de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em um Hospital Universitário no Paraná, observei a elevação do uso de celulares pela equipe multiprofissional, seja para consulta de literatura para tratamento dos pacientes, seja para uso particular, tornando preocupante o uso indiscriminado deste aparelho em ambiente crítico, e as consequências disto, no caso, elevação de infecções hospitalares.
Buscando desenvolver um produto destinado à desinfecção de celulares, sem que este produto cause danos aos aparelhos, consideramos a clorexidina, pois sua toxicidade é de 1800 mg/kg/dia (peso corporal), o que a faz praticamente atóxica, além de não ser poluente e não exalar gases. Buscamos um produto que não fosse líquido para evitar sua infiltração nos orifícios e consequentemente danos aos aparelhos, deste modo a apresentação do produto será em gel.
A clorexidina (Figura 1) é um composto sintético, derivado da bis-biguanida, é um anti-séptico largamente utilizado em produtos voltados tanto na área de saúde humana quanto em saúde animal. O seu mecanismo de ação anti-bacteriano é explicado pelo fato de a molécula catiônica da clorexidina ser rapidamente atraída pela carga negativa da superfície bacteriana, sendo adsorvida à membrana celular por interações eletrostáticas, provavelmente por ligações hidrofóbicas ou por pontes de hidrogênio, sendo essa adsorção concentração-dependente. Assim, em dosagens elevadas, ela causa precipitação e coagulação das proteínas citoplasmáticas e morte bacteriana e, em doses mais baixas, a integridade da membrana celular é alterada, resultando num extravasamento dos componentes bacterianos de baixo peso molecular (ZANATTA 2007).

Figura 01: Estrutura da Clorexidina.

Fonte: Wikipedia

 Segundo o Ministério da Saúde, se entende como infecções hospitalares aquelas adquiridas após a admissão de um paciente em um hospital, quer se manifestem durante a internação ou após a alta, quando puderem ser relacionadas com o período de hospitalização ou procedimentos médicos (PIEKARSKI, 2010). Atualmente, o termo infecção hospitalar está sendo substituída por Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (IRAS), essa mudança abrange não só a infecção adquirida no hospital, mas também aquela relacionada a procedimentos feitos em ambulatório, durante cuidados domiciliares e à infecção ocupacional adquirida por profissionais de saúde tais como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, entre outros (ANVISA, 2013).
Os avanços tecnológicos relacionados aos procedimentos invasivos, diagnósticos e terapêuticos, usados rotineiramente na prática hospitalar e o aparecimento de bactérias resistentes a múltiplas drogas (BRMD) tornaram as infecções hospitalares um problema de saúde pública (OMS, 2000).
A multirresistência (MR) surge pelo fato dos microrganismos serem capazes de produzir enzimas que combatam os efeitos específicos dos antibióticos, inativando-os. (LEMMEN et al., 2004). Atualmente, os MR podem ser classificados em três categorias, ou seja, MDR (Multidrug-resistant) quando são resistentes a um ou mais antimicrobiano de três ou mais categorias testadas, XDR (Extensively drug-resistant) quando são resistentes a um ou mais antimicrobiano em quase todas as categorias (exceto uma ou duas) e PDR (Pandrug-resistant) quando resistente a todos os antimicrobianos testados.
Dentre os microrganismos multirresistentes, atenção especial deve ser conferida ao controle daqueles considerados de relevância clínica e epidemiológica, devido à elevada morbimortalidade associada a estes patógenos, tais como Staphylococcus aureus resistentes a meticilina (MRSA), Enterococos resistentes à vancomicina (VRE), Bacilos Gram negativo como as Enterobactérias produtoras de betalactamase de espectro estendido (ESBL), das produtoras de carbapenemases (KPC) e ainda dos Bacilos Gram negativo não fermentador da glicose (BGN-NF), como as Pseudomonas aeruginosa e Complexo Acinetobacter baumannii resistentes aos carbapenêmicos. (PETERSON, 2009; SIEGEL et al., 2006; SIEGEL et al., 2007).
Em uma pesquisa que compara os microrganismos multirresistentes presentes em superfícies inanimadas de uma Unidade de Terapia Intensiva Adulto com microrganismos isolados em hemoculturas de pacientes internados nesta unidade, o percentual de similaridade genética foi de 60% a 95%, sugerindo que superfícies inanimadas frequentemente tocadas são contaminadas com BRMD e fonte de infecção cruzada dentro do ambiente hospitalar (DAMASCENO, 2010).
A maioria das bactérias Gram-positivas e muitas espécies de Gram-negativas são capazes de sobreviver em superfícies inanimadas secas, por dias e até semanas (KRAMER et al, 2006), incluindo-se nestas superfícies os aparelhos celulares. Com o advento da tecnologia, facilidade de acesso à internet móveis, assim como telas sensíveis ao toque, tão disseminados na atualidade, faz de tais aparelhos fonte para consultas em protocolos de tratamentos, pesquisa bibliográfica dentre outros processos envolvidos no tratamento dos pacientes à beira leito.
Observaram-se também, através de microscopia e estudo genéticos, que alguns microrganismos são capazes de produzirem biofilmes, definidos como uma comunidade de microrganismos sésseis caracterizada por células que se aderem a um substrato, embebidas em matriz ou polímero extracelular, estes formam extensas multicamadas celulares sobre superfícies e equipamentos, causando assim uma série de infecções aos pacientes (PIEKARSKI, 2010).
Pesquisas apontam uma falta de higiene adequada, como lavar as mãos com frequência, das pessoas que usam aparelhos celulares e prestam assistência direta ao paciente crítico. Segundo Mota et al (2014, p. 04), 36,9% dos profissionais levam de 0 a 10 segundos e 58,4% dos profissionais levam de 10 a 20 segundos para higienizarem as mãos, onde a pressa aponta para a ineficiência desta higienização.
Gel é a forma farmacêutica semissólida de um ou mais princípios ativos que contém um agente gelificante para fornecer firmeza a uma solução ou dispersão. Um gel pode conter partículas suspensas. Gel lipofílico é resultante da preparação obtida pela incorporação de agentes gelificantes (tragacanta, amido, derivados de celulose, polímeros carboxivinílicos e silicatos duplos de magnésio e alumínio à água) glicerol ou propilenoglicol (ANVISA,2010).
Observa-se que produtos para desinfecção de superfícies, destinados às bactérias multirresistentes, disponíveis no mercado, têm princípios ativos que podem danificar os aparelhos celulares, como ácido peracético e álcool 70%, diminuindo a adesão dos profissionais na desinfecção de seus aparelhos.
Considerando que as unidades críticas são os setores onde se encontram pacientes que devido ao seu maior período de permanência, podem estar colonizados ou infectados por microrganismos os quais podem se disseminar e causar diversas infecções, desde moderadas até graves, em outros pacientes internados e debilitados imunologicamente tornando-se mais suscetíveis a tais acontecimentos (GILAD 2005).
Esta disseminação, em sua grande maioria ocorre de maneira cruzada, ou seja, podem ser transmitidas pelos próprios profissionais de saúde com o uso indiscriminado de aparelhos celulares pelos mesmos no ambiente crítico, podendo ocasionar infecções, onde tal aparelho torna-se o meio de transporte das bactérias (GILAD 2005).
Ferraz (2007, p. 295) expõe que o uso de GDC em endodontia havia sido proposto recentemente, o que justifica o pequeno número de estudos avaliando sua ação antimicrobiana, o que objetivou sua pesquisa, onde avaliou in vitro a eficácia antimicrobiana do digluconato de clorexidina em gel, em comparação com solução de clorexidina e com hipoclorito de sódio, onde se observou que a clorexidina em gel tem grande potencial para ser utilizada com substância antimicrobiana em endodontia.
Com base nesta pesquisa, foi realizado um teste piloto no Laboratório de Microbiologia do Hospital Universitário do Oeste do Paraná com a finalidade de avaliar a eficácia de diferentes percentuais de GDC em diferentes cepas de BRMD, com os resultados obtidos (Figura 02), podemos confirmar o potencial antimicrobiano do GDC e propor sua utilização na desinfecção de aparelhos celulares dentro do ambiente hospitalar.

Figura 02: Efeito de diferentes percentuais de GDC em cepas de Escherichia coli (1), Pseudomonas aeruginosa (2), Enterococcus faecalis (3), Staphylococcus aureus (4) e Stenotrophomonas maltophilia (5).
Fonte: Teste piloto para desenvolvimento de projeto de pesquisa em Mestrado em Engenharia Biomédica.

Avaliando um produto em suas diferentes concentrações de digluconato de clorexidina, comprovando sua eficácia na concentração adequada para o extermínio de microrganismos multirresistentes e que reduza danos aos aparelhos celulares, poderemos definir planos de ações relacionadas aos cuidados com os aparelhos em ambiente hospitalar frente a esses microrganismos e elevar a adesão dos profissionais na utilização deste produto.
A partir deste trabalho esperamos avaliar se o produto será eficaz ao ser utilizado na desinfecção de aparelhos celulares, bem como em outros aparelhos utilizados no ambiente hospitalar sem causar danos aos aparelhos eletrônicos, dessa maneira elevando a adesão dos profissionais na desinfecção dos seus aparelhos e assim, contribuindo para as práticas de controle de infecção no ambiente hospitalar.

REFERÊNCIAS
BRASIL, 2013. Nota Técnica Nº 01/2013. Medidas de prevenção e controle de infecções por enterobactérias multirresistentes. Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/ea4d4c004f4ec3b98925d9d785749fbd/Microsoft+Word++NOTA+T%C3%89CNICA+ENTEROBACTERIAS+17+04+2013%281%29.pdf?MOD=AJPERES Acesso em: 30/04/2015.

KRAMER, A.; SCHWEBKE, I.; KAMPF, G. How long do nosocomial pathogens persist on inanimate surfaces?A systematic review. BMC Infectious Diseases, 2006.

LEMMEN, S.W.; HÄFNER, H.; ZOLLDANN, D.; STANZEL, S.; LÜTTICKEN, R. Distribution of multi-resistant Gram-negative versus Gram-positive bacteria in the hospital inanimate environment. The Hospital Infection Society, 2003.

GILAD, J. Cell Phones and Acinetobacter Transmission. Emerging Infectious Diseases. Vol. 11, No. 7, July 2005. Disponível em: http://www.cdc.gov.eid. Acesso em: 03/05/2015.

DAMASCENO, Q. S. Características epidemiológicas dos microrganismos resistentes presentes em reservatórios de uma Unidade de Terapia Intensiva. 2010. 104 f. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) – Escola de Enfermagem, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2010. Disponível em: http://www.enf.ufmg.br/pos/defesas/741M.PDF. Acesso em: 04/09/2015.
           
FERRAZ, C. C. R.; et al. Comparative Study of the Antimicrobial Efficacy of Chlorhexidine Gel, Chlorhexidine Solution and Sodium Hypochlorite as Endodontic Irrigants. Brazilian Dental Journal, Vol. 18, N. 4, p. 294-298, Ribeirão Preto, 2007.
           
NÚCLEO DE CONTROLE DE INFECÇÃO HOSPITALAR (NCIH) - Higiene das superfícies para o controle de bactéria multirresistente. 2009. Disponível em: http://www.saude.df.gov.br/pdf. Acesso em: 08/04/2015.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS). Vencendo a resistência microbiana. World Health Report on Infections Disease 2000. [text on the Internet] [cited 2003 Jan 31]. Disponível em: http://www.ccih.med.br/vencendoresistencia.html. Acesso em: 08/04/2015

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS). World Alliance for patient Safety. WHO guidelines on hand hygiene in health care (advanced draft). Geneva, 2006. Disponível em: http://www.cec.health.nsw.gov.au/files/clean-hands/resources/who-guidelines.pdf. Acesso em: 21/03/2015.

PETERSON, L. R. Bad bugs, no drugs: no escape revisited. Clinical Infectious Diseases, v.49, n.6, p.992-3, 2009.

PIEKARSKI, A.C.R. Perfil Fenotípico, Genotípico e Fatores de Virulência de Staphylococcus aureus Isolados de Casos Clínicos e de Portadores Assintomáticos em um Hospital do Interior do Paraná. Tese de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Estadual de Maringá; Maringá, 2010.

SIEGEL, J. D.; RHINEHART, E.; JACKSON, M.; CHIARELLO, L. HEALTHCARE INFECTION CONTROL PRACTICES ADVISORY COMMITTEE. Management of multidrug-resistant organisms in healthcare settings, 2006. Atlanta (GA): Centers for Disease Control and Prevention, 2006.

SIEGEL, J. D.; RHINEHART, E.; JACKSON, M.; CHIARELLO, L. HEALTHCARE INFECTION CONTROL PRACTICES ADVISORY COMMITTEE. Guideline for isolation precautions: preventing transmission of infectious agents in healthcare settings. 2007. Disponível em: http://www.cdc.gov/ncidod/dhqp/pdf/isolation2007.pdf. Acesso em: 21/03/2015.

MOTA, E.C.; et al. Higienização das mãos: uma avaliação da adesão e da prática dos profissionais de saúde no controle de infecções hospitalares. Revista de Epidemiologia e Controle de Infecção; V. 04; N. 01; Universidade de Santa Cruz do Sul; Santa Cruz do Sul; 2014.

ANVISA. Farmacopeia Brasileira; 5ª Edição; V. 01; p. 44; Brasil; 2010. Disponível em: http://www.anvisa.gov.br/hotsite/cd_farmacopeia/pdf/volume1.pdf. Acesso em 08/06/2015.


ZANATTA, F. B.; ROSING, C.K.; Clorexidina: mecanismo de ação e evidências atuais de sua eficácia no context do biofilme supragengival. Scientific-A; V. 1; Nº 2; p. 35 – 43; Brasil 2007.

Nenhum comentário:

Postar um comentário