Quem somos

Quem somos
A turma mais top do Brasil

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

ADMINISTRAÇÃO DE MEDICAMENTOS EM RECÉM-NASCIDOS PREMATUROS: DIFICULDADES E DESAFIOS



Francislene Biederman

Nas últimas décadas a assistência neonatal passou por muitas mudanças e com o aparecimento de novas tecnologias proporcionou novas expectativas de sobrevida aos recém-nascidos de alto risco. Dentro desta assistência, administração de medicamentos é um processo multidisciplinar o qual vai desde a prescrição médica, a provisão/liberação do medicamento pelo serviço de farmácia e a preparação e administração deste pela equipe de enfermagem (MIQUELIN, CASSIANI, BUENO, 1998). Este processo multidisciplinar, pode variar de 20 a 60 etapas e permite várias ordens de serviço, o que favorece a ocorrência de erros (OLIVEIRA; MELO, 2011).
Com o desenvolvimento tecnológico na assistência neonatal, a terapia medicamentosa também teve seus avanços o que influencia diretamente na redução das taxas de morbidade e mortalidade (RISSALTO, ROMANO-LIEBER, LIEBER, 2008). Em meio a todo esse avanço tecnológico e científico temos um grande desafio, a prestação de um cuidado seguro, efetivo e individualizado em contextos clínicos cada vez mais complexos (BELELA, PEDREIRA, PETERLINI, 2011).
No RN, as doses administradas são muito pequenas, o que demanda maior tempo de trabalho da enfermagem (PETERLINE, CHAUD, PEDREIRA, 2003), e em particular nos prematuros, temos o uso frequente de antimicrobianos, devido a suscetibilidade às infecções, relacionada ao sistema imunológico imaturo e pelo elevado número de procedimentos invasivos realizados para assegurar a sua sobrevida (CHAVES et al., 2012).
Devido as suas peculiaridades, os RN estão frequentemente sujeitos aos erros terapêuticos principalmente relacionados à terapia medicamentosa. Isso se deve a situação de risco que estão expostos, portanto, necessitam de alta tecnologia, bem como de prescrição medica individualizada a qual deve levar em consideração o peso corporal e a idade gestacional (BRITO, ROCHA, FERREIRA, 2009.).
A Sociedade Americana de Farmacêuticos (ASHP) classifica os erros de medicação principalmente como erro de prescrição, omissão, programação, medicação não autorizada, dose, preparação, técnica de administração e deterioração do medicamento. Na UTIN, estes erros ocorrem principalmente devido a programação inadequada das bombas de infusão (BI), dosagem e técnicas de preparo e administração os quais, em sua maioria podem ser evitados (SILVA, et al.; 2014).
Uma das maiores dificuldades para a administração de medicamentos em RN, é o uso de fórmulas farmacêuticas apropriadas facilita a administração do medicamento pela enfermagem e evita perdas desnecessária reduzindo os custos no tratamento. A fórmula ideal é aquela cuja preparação se dá através da reconstituição e diluição mantendo a concentração e volume suficiente para a dosagem necessária (KOREN, 2003). Porém, aproximadamente 80% dos medicamentos comercializados para adultos são destinados para o uso em crianças e não se observam mudanças da indústria farmacêutica para a formulação de medicamentos que atendam às necessidades das crianças e RN, já que estes fazem parte de uma pequena parcela quando comparado ao uso adulto (PETERLINE, CHAUD, PEDREIRA, 2003; BAVDEKAR & GOGTAY, 2005).
É de competência da equipe de enfermagem, respeitando a ética profissional, observar e intervir nas reações relacionadas ao uso de medicamentos, para isso, o profissional deve ter o conhecimento sobre os medicamentos, desde suas indicações até as reações adversas (LIMA et al., 2011).
Neste sentido a administração de medicamentos em RNP e RNBP deve ser muito bem calculada evitando a altas concentrações em baixos volumes bem como o excesso de líquidos na diluição de drogas. Para auxiliar a equipe de enfermagem, as UTIN geralmente dispõem de protocolos estabelecidos para a administração de medicamentos, porém, as dúvidas acabam sendo frequentes e ocasionando erros.
Tais protocolos são elaborados pela equipe multidisciplinar, neonatologista, enfermeiro e farmacêutico, e são baseados principalmente no Manual Of Drugs Used In Neonatal Care (Neofax®2011/2012), onde a dosagem e o intervalo de administração dos fármacos são especificados de acordo com a idade gestacional e dias de nascimento ressaltando a concentração do medicamento/volume e o tempo de infusão.
A atuação da equipe de enfermagem no planejamento e execução da administração dos medicamentos é de suma importância pois, a dose, a diluição, o tempo de infusão e o intervalo das medicações está em função da farmacocinética, farmacodinâmica, peso e idade do RN. As alterações neste processo comprometem o resultado do tratamento terapêutico.
A padronização através de protocolos nas UTIN evita o surgimento de bactérias resistentes a múltiplos antibióticos haja vista que um dos principais fatores responsáveis pelo problema permanecem sem controle adequado: o uso indiscriminado de antibióticos (ANTHONY, 2005).
No processo de administração de medicamentos cabe ao enfermeiro atentar-se para algumas questões fundamentais, conhecidos como os 5 certos da medicação: paciente certo, medicamento certo, dose certa, horário certo e via de administração certa. Atualmente enfatizamos ainda mais quatro aspectos indispensáveis: tempo de infusão certo, validade certa, registro certo e abordagem certa (TAMEZ; SILVA, 2006).
Os erros de medicação podem resultar complicações ao paciente e sua família, como gerar incapacidades, prolongar o tempo de internação e de recuperação, expor o paciente a um maior número de procedimentos e medidas terapêuticas, atrasar ou impedir que reassumam suas funções sociais, e até mesmo a morte.
Os erros na administração de medicamentos que se relacionam com à dinâmica mental automática são denominados deslizes ou lapsos, e estão ligadas a fatores como fadiga, horas de sono insuficientes, uso de álcool e drogas, frustrações pessoais, medo, ansiedade, raiva, estresse, barulho, calor excessivo, podem desviar  atenção do profissional, aumentando o risco de erros (ROSA; PERINI, 2003).
Nos RN há necessidade de administrar doses muito fracionadas, isso gera maior tempo de trabalho de enfermagem, além da necessidade de manipulação excessiva, aumentando a probabilidade de uma maior incidência de erros neste processo. Salienta-se que RN, crianças, adolescentes e adultos apresentam diferentes características de absorção, distribuição, metabolismo e excreção de drogas. Todavia, cerca de 80% dos fármacos comercializados são destinados a adultos, sendo que a maioria dessas drogas são utilizadas em crianças, incluindo recém-nascidos. Em estudo realizado em quatro unidades pediátricas de um hospital universitário, identificou a administração de 8245 doses de medicamentos por via intravenosa, de 41 fármacos diferentes, dos quais nenhum tinha apresentação farmacológica pediátrica (PETERLINI; CHAUD; PEDREIRA, 2003).
A vivência da equipe de enfermagem na administração de medicamentos em neonatologia e o conhecimento da farmacocinética e farmacodinâmica destes auxilia na identificação de possíveis erros e fundamenta o planejamento da administração de medicamentos. Salienta-se ainda que o RN não é capaz de aguentar doses maiores que o indicado devido a sua capacidade de excreção e metabolização encontrarem-se em desenvolvimento. O uso correto da medicação permite a efetiva ação terapêutica com menor risco de toxicidade (TAMEZ; SILVA, 2006). O uso da dose muito pequena pode resultar em falha do tratamento e levar a seleção de microrganismos resistentes (GOODMAN; GILMAN, 2003). O uso de tecnologias para a saúde permite o acesso imediato a informações, melhorando a eficiência e a qualidade dos cuidados prestados. A utilização de softwares podem auxiliar na documentação das ações de cuidado, no cálculo de medicamentos, na organização dos recurso humanos e materiais e podem ajudar tanto profissionais quanto estudantes no desenvolvimento do julgamento clínico e do processo de raciocínio diagnóstico. Para Pressman (2011) o software é um “transformador de informações produzindo, gerenciando, adquirindo, modificando, exibindo ou transmitindo informações que podem ser tão simples ou complexas”.
O desafio atual para a equipe de enfermagem é identificar o modo como os antibióticos devem ser preparados e administrados visando reduzir os erros na dosagem solicitada e na concentração final a ser administrada haja vista que os RN utilizam doses menores e os medicamentos encontrados no mercado são produzidos em concentração adequada para adultos. Como a engenharia irá resolver estas questões ainda é um caminho a percorrer.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAVDEKAR, S.; GOGTAY, N. Unlicensed and off-label drug use in children. J Postgrad Méd. 2005; 51(4):1-5.

BELELA, A. S. C.; PEDREIRA, M. L. G.; PETERLINI, M. A. S. Erros de medicação em pediatria. Revista Brasileira de Enfermagem, 2011.

BRITO, M.J.; ROCHA, A. M.; FERRERIA, V. R. Análisis de los eventos adversos en una unidad de terapia intensiva neonatal como herramienta de gestión de calidad de la atención de enfermería. Enferm. glob. [online]. 2009, n.17.

CHAVES, Edna Maria Camelo et al. Problemática da administração de antimicrobiano em recém-nascidos. Revista da Rede de Enfermagem do Nordeste-Rev Rene, v. 9, n. 3, 2012

KOREN, G. Problems in pediatric drug therapy. Ann Pharmacother. 2003; 37(7):1151.

MIQUELIN, J.D.L.; CASSIANI, S.H.B.; BUENO, E. Administração de medicamentos: revisão de relatórios de intercorrências. In: COLÓQUIO PANAMERICANO DE ENFERMAGEM, 6, Ribeirão Preto, 1998. Livro de Resumos. Ribeirão Preto, Centro Colaborador da OMS para o Desenvolvimento da Pesquisa em Enfermagem,1998. p.217.

OLIVEIRA, R.B.; MELO, E. C. P. O sistema de medicação em um hospital especializado no Município do Rio de Janeiro. Escola Anna Nery (impr.)2011 jul-set; 15 (3):480-489.

PETERTLINI, M. A. S.; CHAUD, M. N.; PEDREIRA, M. L. G. Órfãos de terapia medicamentosa: a administração de medicamentos por via intravenosa em crianças hospitalizadas. Revista Latinoamericana de Enfermagem, 2003 jan-fev; 11(1):88-95.

PRESSMAN, R. S. Engenharia de software. 6ª Ed. São Paulo: McGraw-Hill; 2011.

RISSALTO M. A. R.; ROMANO-LIEBER, N. S.; LIEBER, R. R. Terminologia de acidentes com medicamentos no contexto hospitalar. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 24(9):1965-1975, set, 2008.

TAMEZ, R.N; SILVA, M.J.P. Enfermagem na UTI NeoNatal: Assistência ao Recém Nascido de Alto Risco. 2 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002.

Nenhum comentário:

Postar um comentário