Francislene Biederman
Nas últimas décadas a
assistência neonatal passou por muitas mudanças e com o aparecimento de novas tecnologias
proporcionou novas expectativas de sobrevida aos recém-nascidos de alto risco. Dentro
desta assistência, administração de medicamentos é um processo multidisciplinar
o qual vai desde a prescrição médica, a provisão/liberação do medicamento pelo
serviço de farmácia e a preparação e administração deste pela equipe de
enfermagem (MIQUELIN, CASSIANI, BUENO, 1998). Este processo multidisciplinar,
pode variar de 20 a 60 etapas e permite várias ordens de serviço, o que
favorece a ocorrência de erros (OLIVEIRA; MELO, 2011).
Com o
desenvolvimento tecnológico na assistência neonatal, a terapia medicamentosa
também teve seus avanços o que influencia diretamente na redução das taxas de
morbidade e mortalidade (RISSALTO, ROMANO-LIEBER, LIEBER, 2008). Em meio a todo
esse avanço tecnológico e científico temos um grande desafio, a prestação de um
cuidado seguro, efetivo e individualizado em contextos clínicos cada vez mais
complexos (BELELA, PEDREIRA, PETERLINI, 2011).
No RN, as
doses administradas são muito pequenas, o que demanda maior tempo de trabalho
da enfermagem (PETERLINE, CHAUD, PEDREIRA, 2003), e em particular nos
prematuros, temos o uso frequente de antimicrobianos, devido a suscetibilidade
às infecções, relacionada ao sistema imunológico imaturo e pelo elevado número
de procedimentos invasivos realizados para assegurar a sua sobrevida (CHAVES et
al., 2012).
Devido as suas
peculiaridades, os RN estão frequentemente sujeitos aos erros terapêuticos
principalmente relacionados à terapia medicamentosa. Isso se deve a situação de
risco que estão expostos, portanto, necessitam de alta tecnologia, bem como de
prescrição medica individualizada a qual deve levar em consideração o peso
corporal e a idade gestacional (BRITO, ROCHA, FERREIRA, 2009.).
A Sociedade Americana
de Farmacêuticos (ASHP) classifica os erros de medicação principalmente como
erro de prescrição, omissão, programação, medicação não autorizada, dose,
preparação, técnica de administração e deterioração do medicamento. Na UTIN,
estes erros ocorrem principalmente devido a programação inadequada das bombas
de infusão (BI), dosagem e técnicas de preparo e administração os quais, em sua
maioria podem ser evitados (SILVA, et al.; 2014).
Uma das
maiores dificuldades para a administração de medicamentos em RN, é o uso de
fórmulas farmacêuticas apropriadas facilita a administração do medicamento pela
enfermagem e evita perdas desnecessária reduzindo os custos no tratamento. A
fórmula ideal é aquela cuja preparação se dá através da reconstituição e
diluição mantendo a concentração e volume suficiente para a dosagem necessária
(KOREN, 2003). Porém, aproximadamente 80% dos medicamentos comercializados para
adultos são destinados para o uso em crianças e não se observam mudanças da indústria
farmacêutica para a formulação de medicamentos que atendam às necessidades das
crianças e RN, já que estes fazem parte de uma pequena parcela quando comparado
ao uso adulto (PETERLINE, CHAUD, PEDREIRA, 2003; BAVDEKAR & GOGTAY, 2005).
É de
competência da equipe de enfermagem, respeitando a ética profissional, observar
e intervir nas reações relacionadas ao uso de medicamentos, para isso, o
profissional deve ter o conhecimento sobre os medicamentos, desde suas
indicações até as reações adversas (LIMA et al., 2011).
Neste sentido a
administração de medicamentos em RNP e RNBP deve ser muito bem calculada
evitando a altas concentrações em baixos volumes bem como o excesso de líquidos
na diluição de drogas. Para auxiliar a equipe de enfermagem, as UTIN geralmente
dispõem de protocolos estabelecidos para a administração de medicamentos,
porém, as dúvidas acabam sendo frequentes e ocasionando erros.
Tais protocolos são
elaborados pela equipe multidisciplinar, neonatologista, enfermeiro e
farmacêutico, e são baseados principalmente no Manual Of Drugs Used In Neonatal Care (Neofax®2011/2012),
onde a dosagem e o intervalo de administração dos fármacos são especificados de
acordo com a idade gestacional e dias de nascimento ressaltando a concentração
do medicamento/volume e o tempo de infusão.
A atuação da equipe de
enfermagem no planejamento e execução da administração dos medicamentos é de
suma importância pois, a dose, a diluição, o tempo de infusão e o intervalo das
medicações está em função da farmacocinética, farmacodinâmica, peso e idade do
RN. As alterações neste processo comprometem o resultado do tratamento
terapêutico.
A padronização através de
protocolos nas UTIN evita o surgimento de bactérias resistentes a múltiplos
antibióticos haja vista que um dos principais fatores responsáveis pelo
problema permanecem sem controle adequado: o uso indiscriminado de antibióticos
(ANTHONY, 2005).
No processo de administração
de medicamentos cabe ao enfermeiro atentar-se para algumas questões
fundamentais, conhecidos como os 5 certos da medicação: paciente certo,
medicamento certo, dose certa, horário certo e via de administração certa.
Atualmente enfatizamos ainda mais quatro aspectos indispensáveis: tempo de
infusão certo, validade certa, registro certo e abordagem certa (TAMEZ; SILVA,
2006).
Os erros de medicação podem
resultar complicações ao paciente e sua família, como gerar incapacidades,
prolongar o tempo de internação e de recuperação, expor o paciente a um maior
número de procedimentos e medidas terapêuticas, atrasar ou impedir que
reassumam suas funções sociais, e até mesmo a morte.
Os erros na administração de
medicamentos que se relacionam com à dinâmica mental automática são denominados
deslizes ou lapsos, e estão ligadas a fatores como fadiga, horas de sono
insuficientes, uso de álcool e drogas, frustrações pessoais, medo, ansiedade,
raiva, estresse, barulho, calor excessivo, podem desviar atenção do profissional, aumentando o risco
de erros (ROSA; PERINI, 2003).
Nos RN há necessidade de
administrar doses muito fracionadas, isso gera maior tempo de trabalho de
enfermagem, além da necessidade de manipulação excessiva, aumentando a
probabilidade de uma maior incidência de erros neste processo. Salienta-se que
RN, crianças, adolescentes e adultos apresentam diferentes características de
absorção, distribuição, metabolismo e excreção de drogas. Todavia, cerca de 80%
dos fármacos comercializados são destinados a adultos, sendo que a maioria dessas
drogas são utilizadas em crianças, incluindo recém-nascidos. Em estudo realizado
em quatro unidades pediátricas de um hospital universitário, identificou a
administração de 8245 doses de medicamentos por via intravenosa, de 41 fármacos
diferentes, dos quais nenhum tinha apresentação farmacológica pediátrica
(PETERLINI; CHAUD; PEDREIRA, 2003).
A vivência da equipe de
enfermagem na administração de medicamentos em neonatologia e o conhecimento da
farmacocinética e farmacodinâmica destes auxilia na identificação de possíveis
erros e fundamenta o planejamento da administração de medicamentos. Salienta-se
ainda que o RN não é capaz de aguentar doses maiores que o indicado devido a
sua capacidade de excreção e metabolização encontrarem-se em desenvolvimento. O
uso correto da medicação permite a efetiva ação terapêutica com menor risco de
toxicidade (TAMEZ; SILVA, 2006). O uso da dose muito pequena pode resultar em
falha do tratamento e levar a seleção de microrganismos resistentes (GOODMAN;
GILMAN, 2003). O uso de tecnologias para a saúde permite o acesso imediato a
informações, melhorando a eficiência e a qualidade dos cuidados prestados. A utilização de softwares podem auxiliar na documentação das ações de cuidado, no cálculo
de medicamentos, na organização dos recurso humanos e materiais e podem ajudar
tanto profissionais quanto estudantes no desenvolvimento do julgamento clínico
e do processo de raciocínio diagnóstico. Para Pressman (2011) o software
é um “transformador de informações produzindo, gerenciando, adquirindo,
modificando, exibindo ou transmitindo informações que podem ser tão simples ou
complexas”.
O desafio atual para a
equipe de enfermagem é identificar o modo como os antibióticos devem ser
preparados e administrados visando reduzir os erros na dosagem solicitada e na
concentração final a ser administrada haja vista que os RN utilizam doses
menores e os medicamentos encontrados no mercado são produzidos em concentração
adequada para adultos. Como a engenharia irá resolver estas questões ainda é um
caminho a percorrer.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Assistência ao Recém Nascido de Alto Risco. 2 ed. Rio de Janeiro: Guanabara
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