Simone Maria Menegatti de Oliveira
O
envelhecimento é um processo dinâmico que afeta todo o organismo é marcado por
alterações a nível molecular e estrutural que resultam na aparência envelhecida
da pele representada por desidratação, rugas e flacidez (PINTO, 2014). A
evidenciação destas alterações de envelhecimento na pele pode ser feita através
da utilização da espectroscopia Raman confocal.
Os mecanismos
que parecem estar associados com o envelhecimento da pele são complexos (ROBERT
& ROBERT, 2003). Sua manifestação deve-se principalmente às falhas de
mecanismos de manutenção e reparo da pele (RATTAN, 2004). Estudos em
queratinócitos humanos demonstraram expressão alterada de moléculas que regulam
o crescimento com a idade. (GILCHREST et al.,
1994). A expressão do gene da elastina é acentuadamente reduzida após os 40 a
50 anos, como determinado pelos níveis de RNAm (UITTO, 1979).
É na camada da
derme onde ocorrem as maiores modificações no conteúdo de colágeno. A derme
papilar representa aproximadamente 10% do total da espessura dérmica sendo
formada por fibrilas de colágeno finas com cerca de 20-40 nm de diâmetro. A
derme reticular que corresponde a 90 % do total da espessura da derme é
constituída por fibras de colágeno espessas em torno de 60-100 nm de diâmetro e
é essa região a principal responsável pela biomecânica dérmica, tecido de
sustentação e suporte (NGUYEN et al., 2012).
A
espectroscopia Raman confocal estuda o efeito Raman, o qual é baseado no
espalhamento da luz e foi reportado pela primeira vez em 1928 pelo físico
indiano Sir C.V. Raman (1928).
Quando a luz
interage com a matéria, podem ocorrer diferentes fenômenos ópticos, entre eles
a transmissão, absorção e espalhamento. Se a interação da luz com a matéria for
considerada como uma colisão molecular, esta colisão pode ser elástica ou
inelástica. No caso de colisão elástica, não ocorre troca energética e os
fótons espalhados são detectados na mesma frequência dos fótons incidentes. É o
chamado espalhamento Rayleigh. Em contraste, a colisão inelástica envolve
trocas energéticas. Se a energia perdida dos fótons for comparada com a dos
fótons incidentes, ocorre o espalhamento de Stokes, e o processo contrário é
chamado de espalhamento anti-Stokes (FRANZEN & WINDBERGS, 2015).
A Figura 1
mostra um diagrama dos níveis de energia das vibrações moleculares e os fótons
correspondentes espalhados.
Fig. 1. Diagrama de níveis de energia ilustrando diferentes
tipos de espalhamento.
Fonte: FRANZEN & WINDBER, 2015.
Comparada à luz incidente, o espalhamento de Stokes é detectado nos comprimentos de onda longos (baixa energia), enquanto o espalhamento anti-Stokes é detectado em comprimentos de onda curtos (alta energia).
O componente
inelástico é o espalhamento Raman. O espalhamento elástico é mais intenso e por
isso é necessário existir um filtro óptico e grades de dispersão para reduzi-lo
e para aumentar a detecção da fração Raman. Este processo de dispersão é
detectado por um CCD (Charge-coupled device), o qual possui alta eficiência quântica e
menor ruído eletrônico se comparado com o detector de Germânio utilizados nos
sistemas FT-Raman (sistema Raman com Transformada de Fourier), inicialmente
usado em investigações de tecidos biológicos (PINTO, 2014).
A
espectroscopia Raman confocal é realizada através da objetiva de um microscópio
e a luz do laser é focada na região da pele a ser estudada. O sinal Raman é
retroespalhado e reorientado para uma abertura, que funciona como filtro. O
foco da luz detectada coincide com o foco da objetiva, sendo por isso chamado
de confocal. Este sinal filtrado é direcionado para o espectrômetro onde será
disperso em um detector CCD, o qual produzirá o espectro (DAS; AGRAWAL, 2011).
Fig. 2. Representação esquemática
de microscópio Raman confocal, onde a linha vermelha indica o caminho de
excitação da luz de laser e a obtenção do espalhamento Raman.
Fonte: FRANZEN & WINDBER, 2015.
Portanto, cada
molécula que compõe a amostra biológica a ser analisada, dá origem a um
espectro diferente, dependente do seu modo vibracional (LINDON et al, 2000).
As interações
entre os fótons gerados pela luz incidente e as moléculas da amostra resultam
em um espalhamento da luz. No caso do espalhamento Raman, uma quantidade bem
definida de energia é transferida do fóton para molécula, na qual um modo
vibracional é ativado. Uma pequena fração da luz espalhada (o espectro Raman) é
encontrado nos comprimentos de onda mais longos do que os da luz incidente. A
energia exata necessária para ativar a vibração molecular depende da massa dos
átomos envolvidos na vibração e do tipo de ligações químicas entre estes átomos,
e pode ser influenciada pela estrutura molecular, interações moleculares, e a
química característica da molécula. Isto e o fato que as moléculas podem ter um
grande número de modos vibracionais independentes (3N – 6 para uma molécula
contendo N átomos), muitos deles podem ser ativados por um evento de
espalhamento Raman, significa que o espectro Raman é altamente específico para
cada molécula. Portanto as posições, intensidades relativas, e a forma das
bandas em um espectro Raman carregam informações detalhadas sobre a composição
molecular de uma amostra e sobre as estruturas moleculares e interações
presentes (KONINGSTEIN, 1971).
A técnica de
espectroscopia Raman confocal utiliza um laser de 785 nm, que incide sobre a
pele através de uma lente objetiva do microscópio e permite que, através do
espalhamento inelástico de luz, as informações sobre a sua composição
bioquímica sejam obtidas em tempo real, em diferentes camadas e com alta
confiabilidade e resolução (PINTO, 2014).
A irradiação do
tecido biológico pelo laser dá origem a uma energia espalhada pela amostra, a
qual tem informações sobre as ligações químicas, podendo determinar o aumento ou
decréscimo da quantidade de um dado grupo molecular. Estes dados podem ser
monitorados em tempo real, sem nenhuma degradação da amostra (RANIERO et al.,
2011),.
A
espectroscopia Raman tem mostrado ser uma ferramenta bastante versátil e de
grande aplicação na medicina. Muitos estudos na pele já foram realizados com
esta técnica, mas existe ainda um vasto potencial científico a ser explorado,
considerando que algumas limitações antes existentes foram superadas com o
advento desta tecnologia.
Referências Bibliográgicas
DAS,
R.S.; AGRAWAL, Y.K. Raman spectroscopy: recent advancements, techniques and
applications. Vibrational Spectroscopy. 57, p. 163. 2011.
FRANZEN,
L.; WINDBERGS, M. Applications of Raman spectroscopy in skin research — From
skin physiology and diagnosis up to risk assessment and dermal drug delivery.
Advanced Drug Delivery Reviews 89 (2015) 91–104.
GILCHREST
BA, GARMYN M, YAAR M. Aging and photoaging affect gene
expression
in cultured human keratinocytes. Arch Dermatol 1994;130:
82-6.
JENSEN
JA, GOODSON WH, HOPF HW, HUNT TK. Cigarette smoking decreases tissue oxygen. Arch
Surg. 1991; 126:1131-4.
KONINGSTEIN
J.A.: Introduction to the Theory of the Raman Effect Dordrecht: D. Reidel Publishing
Company, 1971.
LINDON,
J.C., TRATER, J.E., HOLMES, J.L. Encyclopedia of spectroscopy and spectrometry.
Amsterdã: Elsevier, 2000. P. 1993.
MORITA
A. Tobacco smoke causes premature skin aging. J Dermatol Sci. 2007; 48:169–75
NGUYEN,
T. T. et al. Characterization of Type I and IV Collagens by Raman
Microspectroscopy: Identification of Spectral Markers of the Dermo-Epidermal
Junction. Spectroscopy: An International Journal, v. 27, n. 5-6, p. 421-427,
2012.
PINTO, LILIANE PEREIRA. Análise dos efeitos do
processo de glicação na pele humana através da espectroscopia raman confocal in vivo. 2014, 108 f. Dissertação (Mestrado
em Engenharia Biomédica), Universidade do Vale do Paraíba, São José dos Campos,
2014.
C.V. Raman, K.S. Krishnan, A new type of secondary
radiation, Nature 121 (1928) 501–502.
RANIERO L, CANEVARI RA, RAMALHO LNZ, RAMALHO,SANTOS EAP,
BITAR RA, JALKANEN KJ, MARTINHO HS, MARTIN AA. In and
ex vivo breast disease study by Raman spectroscopy. Theoretical Chemistry
Accounts: Theory, Computation, and Modeling. Theoretica Chimica Acta. 2011;
130(4‑6):1239‑47. http://dx.doi.org/10.1007/s00214-011-1027-4
RATTAN SI. Aging, anti-aging, and hormesis. Mech
Ageing Dev 2004;125:285-9.
applications. Pathol Biol (Paris) 2003;51:543-9.
UITTO
J. Biochemistry of the elastic fibers in normal connective tissues and its
alterations in diseases. J Invest Dermatol 1979;72:1-10


Nenhum comentário:
Postar um comentário